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Fadiga no Exercício: um alerta imunológico

Historicamente a comunidade científica relacionada a estudos com exercício físico busca esclarecer um fenômeno presente em competições esportivas, em treinamentos físicos profissionais ou até mesmo em simples momentos de descontração, como por exemplo, partidas recreativas de futebol: este fenômeno intrigante é chamado de fadiga.

Com o avançar galopante na qualidade, no número de estudos sobre o exercício e adicionalmente, com a tecnologia transbordando em novas e infinitas possibilidades, muitas moléculas ou agentes vêm sendo descritos como causadores ou marcadores de fadiga. Surgem então muitos conflitos de idéias e teorias sobre o que, de fato, determina a fadiga.

Resumidamente pode-se salientar que aparenta ser impossível apontar um único marcador/causador da fadiga, visto que o tipo de exercício pode ser muito diferenciado em cada estudo. Exemplificando, lista-se a comparação inaplicável de fatores que levam um indivíduo à fadiga em duas situações: um treino de força e um treino aeróbico. Absolutamente distintos. Cada modalidade esportiva pode apresentar suas razões que desenvolvem fadiga no ser humano. Sem deixar no esquecimento o fato de que a motivação para a execução de uma tarefa é um aspecto fundamental para resistir à fadiga. Ou os seres humanos suportam o mesmo nível de estresse físico em uma disputa amistosa do que durante uma disputa por medalha olímpica? Por falar em seres humanos, será que não nos habita algum resquício evolutivo (presente em ou outras espécies) que pode determinar a fadiga? Não parece evidente que na luta entre a caça e um predador há sempre uma disputa de vida que passa invariavelmente por um processo de resistir à fadiga?

Ao considerar marcadores clássicos de intensidade de exercício como a concentração de lactato e o consumo de oxigênio e adicionais marcadores de fadiga (como os níveis de amônia, de ADP, de Pressão parcial de Oxigênio e de CO2, osmolaridade, etc…) o que se observa é que, de fato cada um destes elementos corresponde a um dado tipo de exigência física, a um dado tipo de fadiga. Mas não existiria um ponto em comum entre as diferentes modalidades de fadiga? Até mesmo em outras espécies?

Este artigo tem a proposta de tratar o sistema imunológico como um medidor do estresse que o corpo é submetido durante o exercício. Independente da modalidade, da intensidade, do grupo muscular envolvido, da situação (se competitiva ou não), o sistema imune (composto por linfócitos, macrófagos, neutrófilos, etc…) é capaz de perceber que está ocorrendo uma quebra na homeostasia e de identificar que o corpo está sendo exigido.

No campo de estudos sobre o exercício físico e sistema imune, muito se discute sobre o fenômeno chamado de janela aberta imunológica (período após o exercício no qual o corpo pode estar mais suscetível a infecções por depressão momentânea do sistema imunológico) que pode durar de 3 à 72h. Visto que o período e a magnitude da janela aberta dependem do grau de exigência do corpo humano, pode-se esperar que o organismo disponha de mecanismos fisiológicos para evitar uma imunossupresão exagerada. Como? Promovendo a fadiga.

Durante o exercício ocorre a liberação de citocinas, que são substâncias sinalizadoras para muitas células e diferentes órgãos. O exercício em si gera um estado pró-inflamatório sistêmico (e local, muscular) que é reparado por mediadores anti-inflamatórios liberados também durante o exercício físico. O interessante é que as citocinas (tanto pró quanto anti-inflamatórias) assim como proteínas altamente conservadas entre as espécies (como a HSP70, do inglês heat shock protein) são liberadas na circulação por células imunológicas e podem induzir a fadiga. Isto ocorre devido à interação do sistema imunológico (em defesa do organismo) com o sistema nervoso central, que ocorre por meio destes sinais periféricos que são interpretados centralmente, promovendo a sensação de fadiga.

Portanto, muito mais do que uma descoberta moderna, a razão pela qual sentimos fadiga durante o exercício pode estar explicada por princípios fisiológicos muito primitivos e conservados na espécie humana. A fadiga pode representar um mecanismo de defesa do organismo, oriundo do diálogo fisiológico entre o sistema imune e o sistema nervoso central.

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