Metas Reais de Gasto Calórico no Exercício e, ainda assim, Emagrecimento!

Metas Reais de Gasto Calórico no Exercício e, ainda assim, Emagrecimento!

No último estudo que apresentamos nesta série de posts (que pode ser visto aqui), a prescrição de exercício foi baseada em alto volume de exercício aeróbio, o que resultou em ótimos resultados que foram alcançados sem qualquer restrição alimentar. Ainda melhor, naquele estudo os exercícios foram realizadospelas pessoas com sobrepeso e obesidade, ou seja, exatamente nosso público de interesse. Então, apesar de volumoso, o protocolo era factível, foi bem tolerado, e gerou amplos benefícios em obesos.

Entretanto, é válido analisar protocolos de treino mais suaves, que não geram tanto déficit calórico (sem dieta!). Neste sentido, cabe comentar estudos com metas mais realistas, que possivelmente poderiam ser alcançadas por mais pessoas. Quais seriam os resultados desta abordagem?

Neste contexto, o estudo MET2 (Midwest Exercise Trial 2) é uma ótima referência para consulta. Aqui, duas metas de exercício foram propostas: 400 kcal por sessão e 600 kcal por sessão. Veja o checklist abaixo e confira a metodologia do estudo MET2. Lembra do tão aclamado estudo de Tremblay et al (1994)? Não dá nem para comparar os artigos, pois o MET2 tem alta qualidade.

(1) Indivíduos com sobrepeso e/ou obesidade? >> Sim. Os valores de IMC, em homens e mulheres, variaram de 28,9 a 32,1 kg/m2.

(2) Amostra grande? >> Sim, 141 indivíduos divididos em 3 grupos (controle, treinamento a 400 kcal/sessão e treinamento a 600 kcal/sessão).

(3) Ensaio clínico randomizado (ECR)? >> Sim.

(4) Avaliações por métodos de referência? >> Sim. DEXA para composição corporal. Além disso, as avaliações foram CEGADAS. Isto é, os dados foram coletados, manejados e analisados por pesquisadores que NÃO sabiam os grupos dos participantes.

(5) Desfechos avaliados? Peso corporal, gordura total, massa livre de gordura (“massa magra”), VO2.

O estudo MET2 durou 10 meses, SEM modificações no padrão alimentar dos sujeitos, SEM modificação na atividade física cotidiana, e tem como resultados: REDUÇÃO de PESO e GORDURA TOTAL. Se você ainda acredita que exercício aeróbio “destroi” a massa muscular, temos uma ótima notícia: a massa magra não foi alterada, o que indica que a perda de peso ocorreu ATRAVÉS da PERDA de gordura.

Seguem os resultados:

PERDA DE PESO

Grupo 400 kcal por sessão (70-80% da FCmax)
Homens: -3,8 kg
Mulheres: -4,1 kg

Grupo 600 kcal por sessão (70-80% da FCmax)
Homens: -5,9 kg
Mulheres: -4,4 kg

PERDA DE GORDURA

Grupo 400 kcal por sessão (70-80% da FCmax)
Homens: -3,6 kg
Mulheres: -3,4 kg

Grupo 600 kcal por sessão (70-80% da FCmax)
Homens: -5,9 kg
Mulheres: -4,4 kg

[Os valores de perda de gordura não estão errados. Estes são iguais ou muito similares aos valores de perda de peso total devido à ausência de variação na massa magra. Isto é o desejável.]

Porém, o mais interessante do estudo MET2 não é a perda de peso e de gordura. Isso é mais do mesmo. Nós já vimos que é algo REAL, tem efeitos associados com o gasto energético durante o esforço, e – infelizmente – incomoda muito alguns coaches. O mais importante do estudo MET2 são as taxas de sucesso da intervenção. O estudo mostra os DADOS INDIVIDUAIS, que indicam a variação percentual em peso corporal sujeito-a-sujeito para os 3 grupos. Nós acreditamos que um dos principais fatores que ainda devem ser discutidos, em relação ao grande escopo conceitual que está por trás do problema da obesidade, é o fator adesão e perfil para os tipos de exercício – muito mais do que qualquer abordagem fisiológica. Sejamos realistas. Há indivíduos que gostam menos de exercício e não toleram exercício diário com duração de 60 minutos aproximadamente. Também há pessoas, principalmente mulheres de meia-idade e idosas, que odeiam exercício intenso e se recusam a fazer os poucos e “milagrosos” minutos muito intensos vendidos como 8ª maravilha do mundo pelos Profetas do Apocalipse do Exercício Aeróbio.

Este é um estudo que mostra dados úteis à prática, e não mágicos. Os resultados mostram claramente que para a maioria das pessoas estudadas (representadas pelas médias dos grupos), há benefício de dois modelos simples de treinamento aeróbio contínuo. Como havíamos comentado no primeiro texto da série #EmagrecimentocomEvidencia, não existe método 100% eficaz. E se existe, ficaremos felizes em ver as evidências, assim como o estudo MET2 demonstra com qualidade e consistência metodológica a eficácia do treinamento físico para a obesidade.

Daniel Umpierre
Lucas Helal

Quer o artigo? Email para: equipe@evidenciasaude.com.br

Professor, pesquisador, e pai. Sócio-fundador do Evidência Saúde. Interessado em exercício em grupos especiais, metodologia científica, e disseminação científica.

1 comentário

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  • Excelente texto Daniel e.compartilho da opinião que muitos individuos não toleram una rotina de exercícios e vivo essa situação com frequência .

    Julia Dalcin Resposta

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