Hiperlipemia pós-prandial e função vascular: a influência do exercício

Hiperlipemia pós-prandial e função vascular: a influência do exercício

Como visto no texto anterior a hiperlipemia pós-prandial tem efeitos deletérios sobre parâmetros oxidativos e função endotelial. Didaticamente, poderíamos pensar na seguinte seqüência: hiperlipemia → estresse oxidativo → disfunção endotelial. Esse quadro se estende por horas após uma refeição tanto em pessoas saudáveis quanto em diabéticos ou em pessoas com resistência à insulina, porém com magnitude e duração maiores nos dois últimos casos.

Como estratégia de controle da disfunção endotelial e do estresse oxidativo, benefícios do exercício físico têm sido evidenciados em indivíduos saudáveis e cardiopatas(1). Portanto no controle da seqüência de eventos que alteram a função endotelial nos períodos de hiperlipemia pós-prandiais, o exercício pode desempenhar papel importante.

Na comparação da reatividade vascular (vasodilatação) após refeições pobre e ricas em gorduras, verifica-se uma vasodilatação atenuada após a refeição rica em gorduras. No entanto, tal prejuízo vascular parece não ocorrer quando o exercício é realizado. Por exemplo, uma sessão de exercício intermitente de preensão manual (5 minutos) realizada 4 horas após uma refeição rica em gorduras (portanto num momento em que a vasculatura ainda sofre os efeitos pós-prandiais danosos) manteve a vasodilatação arterial semelhante à situação após uma refeição pobre em gorduras (2).

O exercício contínuo de grandes grupos musculares foi investigado pelo Dr. Gill e colegas onde evidenciaram que uma sessão de exercício, contínuo e de intensidade moderada (90 minutos a 50%VO2máx.) tem efeito protetor no endotélio na hipertrigliceridemia pós-prandial. Num desenho bastante interessante os pesquisadores colocaram a sessão de exercício mais de 12 horas antes da refeição hiperlipêmica. Foram analisados 2 grupos de homens maduros, um dos grupos de homens com obesidade central, em 2 situações: a) refeição após exercício; b) refeição após controle (sem exercício).

A sessão de exercício em esteira foi executada na noite anterior da refeição, pelo menos 12 horas antes do teste pós-prandial. A concentração de TGs no jejum foi 25% menor após a sessão de exercício em relação ao jejum sem exercício anterior. E nos momentos pós-exercício a função vasomotora dependente do endotélio foi preservada em torno de 15% em relação à sessão sem exercício (3).

Uma sessão de exercício contínuo e moderado ativa o efeito protetor na função endotelial da vasculatura periférica durante horas após a refeição, o que perdura por diversas horas. Essa peculiaridade do exercício na hiperlipemia pós-prandial parece que o evidencia como uma estratégia não-medicamentosa, e reforça seu papel na proteção cardiovascular. Se contarmos 4 horas de lipemia alterada, e a partir dessa, estresse oxidativo aumentado, em 4 refeições ao dia, cumulativamente temos cerca de 16 horas em condições de desequilíbrio vascular. Em contrapartida, apenas uma sessão de exercício atenua os prejuízos vasculares, mesmo muitas horas após a sessão de treino. Outro aspecto a ser salientado é que isto parece ocorrer mesmo se o exercício é executado poucas horas após a refeição (4) ou mais de 10 horas antes da refeição (3).

A disfunção endotelial parece estar relacionada com o aumento da hiperlipemia que leva ao incremento do estado redox. O mecanismo pelo qual se desenvolve esse “efeito protetor” do exercício estaria, portanto, ligado à diminuição da hiperlipemia e, através dessa, a diminuição do estresse oxidativo e menor perda da funcionalidade do endotelial.

Porém não é somente o exercício contínuo de intensidade moderada que preserva o organismo da hiperlipemia pós-prandial.O exercício intervalado de alta intensidade vem ganhando corpo na literatura como uma intervenção eficaz na reabilitação de pacientes com insuficiência cardíaca (5) e síndrome metabólica (6). Uma área relativamente nova na investigação da reabilitação cardíaca, que demonstra resultados importantes na diminuição dos sinais e sintomas dessas duas condições crônicas.

Em relação à hiperglicemia pós-prandial e seu efeito na função vascular uma sessão de exercício intervalado mostrou-se superior ao exercício contínuo de intensidade moderada. Num trabalho com desenho semelhante ao do grupo do Dr. Gill, isto é, com a sessão de treino colocada mais de 10 horas antes da refeição, Tyldum et al (7) investigaram os efeitos do exercício intervalado de alta intensidade. Comparado à situação de exercício moderado, a sessão intervalada de alta intensidade demonstrou maior capacidade da função vascular endotélio-dependente (45% vs. 20%, P<0,01) após uma refeição rica em gorduras. Os efeitos positivos foram dependentes da intensidade e relacionados à capacidade antioxidante (7).

Na seqüência dos eventos “hiperlipemia → estresse oxidativo → disfunção endotelial”,o controle da hiperlipemia, portanto, desde o início dessa cascata diminui o efeito de todos ou outros estágios do fenômeno. A resposta hiperlipêmica não sofre grandes alterações em sua magnitude e duração após as refeições. E o mesmo ocorre com a função endotelial, que estará protegida dos aumentos da lipemia nos momentos pós-prandiais.

Ao passo que a maior parte da vida se dá nos momentos pós-prandiais, qualquer estratégia que diminua os efeitos indesejados nesses longos períodos são bem-vindos, em saudáveis e principalmente em pessoas com risco aumentado para o desenvolvimento de eventos cardiovasculares.

Como evidenciam os trabalhos, o “efeito protetor” do exercício parece durar quase meio dia, o que poderia abarcar mais de um período pós-prandial. Porém as investigações ainda não demonstraram se a proteção se estende ao longo de mais de uma refeição hiperlipemiante, ou em pacientes diabéticos ou cardiopatas.
Bons treinos pré ou pós-prandiais!

Referências:
1. Umpierre D, Stein R, Vieira PJ, Ribeiro JP. Blunted vascular responses but preserved endothelial vasodilation after submaximal exercise in chronic heart failure. Eur J Cardiovasc Prev Rehabil. 2009;16(1):53-9.
2. Padilla J, Harris R, Fly A, Rink L, Wallace J. A comparison between active-and reactive-hyperaemia-induced brachial artery vasodilation. Clinical Science 2006;110:387-392
3. Gill J, Al-Mamari A, Ferrell, William R, Cleland S, Packard C, Sattar N, Petrie J, Caslake M. Effects of Prior Moderate Exercise on Postprandial Metabolism and Vascular Function in Lean and Centrally Obese Men. JACC 2004;44:12
4. Padilla J, Harris R, Fly A, Rink L, Wallace J. The effect of acute exercise on endothelial function following a high-fat meal. Eur J Appl Physiol. 2006;98:256–262
5. Wisløff U, Støylen A, Loennechen J, Bruvold M, Rognmo Ø, Videm V, Haram P, Tjønna A, Helgerud J, Slørdahl S, Lee S, Bye A, Smith GL, Najjar, S, Ellingsen Ø, Skjærpe T. Superior Cardiovascular Effect of Aerobic Interval Training Versus Moderate Continuous Training in Heart Failure Patients: A Randomized Study. Circulation 2007;115:3086-94
6. Tjønna A, Lee S, Rognmo Ø, Stølen T, Bye A, Haram P, Loennechen J, Al-Share Q, Skogvoll E, Slørdahl S, Kemi O, Najjar S, Wisløff U. Aerobic Interval Training Versus Continuous Moderate Exercise as a Treatment for the Metabolic Syndrome – A Pilot Study. Circulation 2008;118:346-354
7. Tyldum G, Schjerve I, Tjønna A, Kirkeby-Garstad I, Stølen T, Richardson R, Wisløff, U. Endothelial Dysfunction Induced by Post-Prandial Lipemia Complete Protection Afforded by High-Intensity Aerobic Interval Exercise. JACC 2009;53:2

 

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