Dicas para Interpretar Artigos de Emagrecimento: até quando Tremblay et al?

Dicas para Interpretar Artigos de Emagrecimento: até quando Tremblay et al?

#EmagrecimentocomEvidencia

Quando se fala em tipos de exercício e emagrecimento, o artigo de Angelo Tremblay e colaboradores (Metabolism, 1994) é provavelmente o trabalho mais conhecido a favor do exercício de alta intensidade (HIIT) em comparação ao exercício de baixa intensidade.

Olhando com o mínimo cuidado os dois grupos, já vemos um dado excelente: o somatório das dobras cutâneas do tronco reduziu nos DOIS GRUPOS: aeróbico de baixa intensidade e grupo HIIT. No somatório de 6 dobras cutâneas (membro superior e membro inferior), somente o grupo HIIT obteve redução de gordura. Os efeitos se tornam interessantes quando se considera um menor gasto calórico durante o HIIT, e 5 semanas a menos de intervenção – e ficam ainda mais favoráveis ao HIIT quando os autores corrigem o tamanho do efeito para o gasto calórico. Isto é, quando se considera a redução das dobras cutâneas em relação ao baixo gasto calórico envolvido no HIIT, a diferença a favor do exercício de alta intensidade se torna maior. Um tanto inútil para explicar ao seu aluno, o qual quer saber as mudanças reais, mas tudo bem.

Embora o estudo de Tremblay seja uma referência conhecida sobre as intensidades de exercício e composição corporal, este artigo tão aclamado pelos “Profetas do Apocalipse do Exercício Aeróbio” (PAEA) apresenta sérias limitações metodológicas. Sem qualquer exagero, este artigo NÃO deve ser usado como referência para escolher um método de exercício para emagrecimento.

Quatro características principais impossibilitam levar a sério o artigo de Tremblay. Porém, mais importante do que apontar defeitos, a intenção neste texto é iniciar a proposta de como interpretar e ser mais crítico nas análises de trabalhos científicos – em especial para emagrecimento, tema desta série:

(1) Tente achar o índice de massa corporal (IMC) dos participantes. Você não encontrará. Mas você verá que os participantes eram SAUDÁVEIS E NENHUM ERA OBESO. O peso corporal dos grupos variou de 60 a 63 kg, ou seja, é muito provável que os indivíduos tivessem IMC normal, e nem mesmo apresentassem sobrepeso. Nos dias de hoje, falar de emagrecimento usando estudos feitos em magros é como estudar futebol em livros de vôlei. Apesar de os PAEA esbravejarem que IMC não é importante, para isto ele é MUITO.

Aqui vai a primeira dica: Busque estudos realizados em pessoas com sobrepeso e/ou obesidade.

(2) O tamanho da amostra foi BEM pequeno. No total, 27 indivíduos começaram o estudo, dos quais 17 foram alocados no grupo baixa intensidade e 10 indivíduos no grupo HIIT. Ao longo das intervenções, as desistências em ambos os grupos foram de aproximadamente 25%. Considerando essa perda de sujeitos no grupo HIIT, temos um total de 7 ou 8 pessoas que completaram a intervenção. Você quer basear sua prática em emagrecimento usando um estudo em MAGROS, SAUDÁVEIS, QUE TOTALIZAVAM 7 ou 8 INDIVÍDUOS?

Dica 2: Não extrapole os resultados com base em estudos pequenos, ou estudos de caso. Há pouca possibilidade de generalização e um risco grande de que você esteja misturando laranjas com maçãs.

(3) O estudo não foi randomizado, e o grupo HIIT iniciou o estudo com maior peso e gordura corporal. Olhe a tabela 1 do estudo. Já na largada do estudo, sem qualquer intervenção nos indivíduos, a média do grupo HIIT foi 3 kg maior do que o grupo de baixa intensidade (se você achar que a estatística é importante aqui, fique à vontade para comentar). Além disso, o somatório de gordura corporal foi também maior (~16%) no grupo HIIT. Isto demonstra um aparente desequilíbrio entre os grupos já no início do estudo. Assumindo a existência deste desequilíbrio, vale lembrar que “quanto menos treinado um indivíduo, mais treinável ele será”. Com isso em mente, é mais fácil emagrecer pessoas com mais peso e com mais gordura corporal (como era o caso do grupo HIIT).

Dica 3: SEMPRE que possível, leia e use estudos randomizados, que são aqueles com distribuição aleatória (ex: por sorteio) dos sujeitos nos grupos de intervenção. Assim, haverá mais uniformidade entre os grupos em diversos aspectos, e estes serão mais comparáveis entre si.

Emagrecimento-HIIT-Tremblay

(4) Dobras cutâneas na prática profissional, sim. Mas usar estudos com dobras cutâneas nos dias atuais requer conhecimento e atenção. O artigo de Tremblay usou avaliação de dobras cutâneas, ou seja,um método estabelecido, reprodutível, válido, e científico. Mas longe de ser um método padrão-ouro para avaliação de adiposidade corporal. O estudo poderia apresentar o ETM (erro típico de medida), ou a reprodutibilidade das medidas, ou ter um avaliador cegado que não conhecesse os grupos de intervenção, ou ter tido resultados em duplicata (em dois dias diferentes). Nada disso parece ter sido feito. Os autores mostraram as dobras absolutas em diferentes locais, e somatórios destas dobras. Na década de 90, isso era justificável e relativamente original. Mas estamos no ano de 2014. Basear a prática de emagrecimento em estudos científicos com metodologia tão limitada (não devido às dobras, mas à metodologia de mensuração), é um tiro no escuro fadado a erros de aferição.

Dica 4: Informações sobre peso corporal, adiposidade total, gordura subcutânea, e gordura visceral são importantes para analisarmos o emagrecimento. Busque estudos cegados (onde avaliadores não sabem as intervenções que os indivíduos fizeram), com métodos consistentes, e preferencialmente com uso de DEXA, ressonância magnética ou tomografia computadorizada.

PS: Se você quiser o estudo de Tremblay et al., peça pelo link de contato ou por e-mail: equipe@evidenciasaude.com.br

Professor, pesquisador, e pai. Sócio-fundador do Evidência Saúde. Interessado em exercício em grupos especiais, metodologia científica, e disseminação científica.

1 comentário

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  • Parabéns pelo site e pelo blog, acompanhamos sempre!

    Renata Pacheco Resposta

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