Treino de força de alta intensidade acima dos 90 anos?

Treino de força de alta intensidade acima dos 90 anos?

Comentário de estudo
High-Intensity Strength Training in Nonagerians: effects on skeletal muscle.
Fiatarone et al. JAMA, 1990.

Qual o problema e o que se sabe a respeito até o momento?

A fraqueza muscular em idosos está relacionada à ocorrência de quedas, imobilidade e dependência de terceiros. A Sarcopenia caracteriza-se pela perda progressiva da massa muscular e consequentemente da força muscular (dinapenia) em idosos, estimulados pelo comportamento sedentário. Essas condições são preditoras da redução da capacidade funcional. Nesse contexto, o treino de força é utilizado como estratégia para aumentar a força e massa muscular, e portanto reduzindo as frequentes quedas em idosos.

Por que os pesquisadores fizeram esse estudo?

Para estabelecer a segurança e eficácia do treinamento de força de alta intensidade em idosos nonagenários frágeis.

Quem foi estudado?

Foram estudados 10 indivíduos idosos com idade média de 90±1 anos.

Como foi feito o estudo?

O estudo foi um ensaio clínico com participação de idosos nonagenários com doenças cardiometabólicas estáveis, sem complicações clínicas. Dos 712 idosos que viviam em um centro de reabilitação de idosos, 22 atendiam os critérios de inclusão e 10 concordaram em participar do estudo. Assim, 6 mulheres e 4 homens realizaram um treinamento de 8 semanas que consistiu em 3 séries de 8 repetições de extensão unilateral de joelho partindo de 90º de flexão, cadência variando de 6 a 9 segundos por cada ação dinâmica, intervalos de 1 a 2 min e intensidade de 80% de 1RM a partir da segunda semana de treino.

Quais foram os achados?

Tolerância ao treinamento: 9 indivíduos completaram o estudo. Não foram observadas complicações cardiovasculares; 4 indivíduos sentiram desconforto na articulação do joelho ou quadril, porém sem desistência do treinamento.

Força Muscular: aumento médio de 174%. Peso absoluto aumentou de 8±1 kg para 21± 2kg para perna direita e de 8±1kg para 19±2kg na perna esquerda, sem diferenças entre mulheres e homens.

Tamanho do músculo: a área da secção transversa do quadríceps tendeu a aumentar em apenas 5 indivíduos porém com diferença apenas para a musculatura interna da coxa (adutores), bem como músculos ísquiotibiais em 8,4%± 3.9% (p< 0,05).

Desfechos Clínicos: não houve mudança significativa na velocidade de caminhada no teste de 6 minutos, porém, houve uma tendência na redução do tempo de teste, representado por um aumento na velocidade de caminhada de 13.8cm/seg. para 20.4cm/seg. Isto reflete um aprimoramento de 48%, e é complementado pelo fato de dois sujeitos terem deixado de usar bengala para locomoção ao final do estudo.

No teste de levantar da cadeira, um sujeito não utilizava mais os braços para ajudar o movimento, além do mais, nenhum participante relatou quedas no decorrer do estudo. Essas melhorias foram independentes de mudanças da composição corporal medida por tomografia computadorizada.

Efeitos do Destreinamento: foram realizados testes de 1 RM na 2ª e 4ª semana após término do estudo. Neste particular, em apenas 4 semanas de destreino foram perdidos mais de 30% dos valores de força muscular.

Quais as limitações do estudo?

Um “n” amostral pequeno, e ao se treinar apenas um único grupo muscular, impediu observar mudanças na massa muscular do corpo inteiro, nem as atividades de vida diária.

Quais as implicações do estudo?

Este trabalho é uma evidência clássica que demonstrou que um programa estruturado de treinamento de força de alta intensidade promove aumentos dramáticos na força muscular de idosos frágeis com idades até 96 anos, podendo ser estimulado sua aplicação nesses indivíduos com objetivo de melhora funcional, reduzindo a prevalência de quedas.

Licenciado pleno em Educação Física - Faculdade Salesiana de Vitória (2005). Pós Graduado em Fisiologia e Cinesiologia do Exercício e Saúde - Universidade Gama Filho (2008). Mestrado em Educação Física vinculado à linha de pesquisa: Aspectos fisiológicos agudos e crônicos do movimento corporal humano. LAFEX - Laboratório de Fisiologia do Exercício - UFES - Universidade Federal do Espírito Santo (2016). Professor de Educação Física estatutário atuando em Unidades de Saúde no município de Serra - ES. Área de interesse: Treinamento intervalado de alta intensidade, Treinamento aeróbio contínuo, Consumo máximo de oxigênio, Doenças cardiometabólicas, Limares metabólicos e ventilatórios, Bioenergética.