Treinamento aeróbico contínuo ou intervalado para a síndrome metabólica

Treinamento aeróbico contínuo ou intervalado para a síndrome metabólica

Aerobic Interval Training versus Continuous Moderate Exercise as a Treatment for Metabolic Syndrome: A Pilot Study.

Arnt Erik Tjønna, MSc; Sang Jun Lee, PhD; Øivind Rognmo, MSc; Tomas O. Stølen, MSc; Anja Bye, MSc; Per Magnus Haram, PhD; Jan Pål Loennechen, PhD; Qusai Y. Al-Share, MSc; Eirik Skogvoll, PhD; Stig A. Slørdahl, PhD; Ole J. Kemi, PhD; Sonia M. Najjar, PhD; Ulrik Wisløff, PhD. Circulation. 2008;118:346-354

Para acessar o artigo original, clique aqui.

A Síndrome Metabólica atinge aproximadamente 312 milhões de pessoas em todo mundo. Essa síndrome caracteriza-se pela apresentação de medidas de risco na pressão arterial, perfil lipídico, glicemia e circunferência abdominal.

Treinamento físico é uma medida eficaz no controle e tratamento dessa condição. No entanto, discute-se qual seria a intensidade ideal de exercício físico para um melhor controle da síndrome metabólica. Neste sentido, o treinamento de intervalado de alta intensidade torna-se uma estratégia estudada devido à possibilidade de maximizar efeitos metabólicos e cardiovasculares (em um texto anterior também abordamos esse tipo de treinamento).

No desenho do estudo que irei comentar a partir de agora, 32 indivíduos com síndrome metabólica foram incluídos na amostra (idade média de 52 anos; VO2máx de 34 ml/kg/min), e foram divididos aleatoriamente em 3 grupos:

Grupo Treinamento Aeróbio Intervalado (TAI) – 12 participantes

Grupo Treinamento Aeróbio Contínuo (TAC) – 10 participantes

Grupo Controle (CON) – 10 participantes

Em métodos, a função endotelial foi avaliada por dilatação mediada por fluxo através de ultra-som, pressão arterial por esfigmomanômetro, consumo máximo de oxigênio por ergoespirometria, e também se realizou biópsia do músculo vasto lateral e do tecido adiposo na região glútea para análise de enzimas e receptores ligados à síntese, transporte e metabolismo de gorduras e nutrientes. Dentre estes, incluem-se FATP-1, FAS, PGC1-alfa e SERCa2+ ATPase 1 e 2. Veja o significado dessas siglas no quadro abaixo do texto.

Análises bioquímicas ainda mostraram taxa de LDL oxidado (preditor de aterosclerose), insulina em jejum, glicemia em jejum, adiponectina e função das células Beta. As coletas foram realizadas antes do estudo e até 4 dias após a última sessão de treinamento.

Nos resultados, os sujeitos de ambos os grupos TAI e TAC tiveram perda de peso corporal de 3 a 4%, porém não tiveram diferenças significativas entre si. Ressalta-se que não houve alteração da dieta durante o período do estudo. Outros fatores de risco também foram reduzidos nos dois grupos que realizaram treinamento. O grupo TAI reduziu mais fatores de risco (diminuição de 46%) comparado com o grupo TAC (diminuição de 36%).

Como esperado, o consumo máximo de oxigênio aumentou em maior magnitude no grupo de alta intensidade de exercício (TAI). De forma muito interessante, esse padrão também foi encontrado na função endotelial e níveis pressóricos, o que difere de outros estudos que não apresentaram melhora vascular importante em treinamento físico de alta intensidade.

Os principais desfechos do trabalho foram marcadores moleculares relacionados ao metabolismo. Neste sentido, receptores PGC 1-α (associados com a biogênese mitocondrial)e a SERCa2+ (importante na regulação do cálcio e contração muscular) aumentaram apenas no grupo TAI. Receptores PGC1-alfa foram aumentados em 138% no grupo TAI, indicando grande aumento da biogênese mitocondrial.

Abaixo, os gráficos dos resultados comentados nos parágrafos acima. Barras escuras representam avaliações pré-treinamento, barras brancas significam pós-treinamento, e os grupos CON, TAC e TAI são representados como Control, Moderate e Interval.

Um achado interessante desse estudo foram evidências de redução da lipogênese (síntese de gorduras) após o treinamento de maior intensidade. A expressão de FATP-1 (transportadores de ácidos graxos para o tecido adiposo) foi reduzida em 3 a 4 vezes, e o conteúdo de FAS (enzima chave da lipogênese) também apresentou-se diminuído. Isto sugere que o TAI inibiu processos de síntese de gorduras.

O exercício AIT melhorou drasticamente a glicemia em jejum, o que foi acompanhado pelo aumento da sensibilidade à insulina. Adicionalmente, a adiponectina circulante esteve aumentada nos dois grupos, sugerindo uma melhor sensibilidade a insulina e menor depósito de gordura visceral.

É possível que alguns surpreendam-se ainda com os resultados de ambos grupos reduzirem o peso corporal devido aos protocolos distintos, e sabe-se que grandes reduções ponderais só são observadas na presença de intervenções dietéticas. Entretanto, tem sido entendido que é mais importante estar bem condicionado fisicamente a apenas perder peso “per se”, pois há uma relação inversa entre consumo máximo de oxigênio (uma medida de condição física) e mortalidade cardiovascular em indivíduos obesos com Síndrome Metabólica.

Este estudo demonstra que a intensidade do exercício, bem como sua forma de execução (neste caso, intervalado), possui importância ao condicionamento físico global e pode reverter diversos os fatores de risco que integram a Síndrome Metabólica.

Abreviaturas
PGC1- α: Receptores ativados por proliferadores de peroxissoma coativador 1 alfa (Biogênese Mitocondrial)
FATP-1: Transportador de ácido graxo 1
FAS: Ácido graxo Sintase
SERCa2+ ATPase: Retículo sarcoplasmático Cálcio ATPase.

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