Treinamento de Força e Pressão Arterial – Metanálise de MacDonald et al (JAHA, 2016)

Treinamento de Força e Pressão Arterial – Metanálise de MacDonald et al (JAHA, 2016)

Síntese da meta-análise MacDonald et al., 2016 (JAHA)

DOI: 10.1161/JAHA.116.003231

Em recente metanálise publicada no Journal of the American Heart Association, produzida pelo grupo da Dra. Linda Pescatello, da Universidade do Connecticut, Hayley MacDonald e seus colaboradores analisaram o efeito do treinamento de força como medida exclusiva de modificação de estilo de vida na terapia anti-hipertensiva. Nesta revisão, foram analisados 64 estudos controlados, contando com 71 grupos de intervenção e representando um número amostral de 2344 pessoas.

Os estudos incluídos na análise foram publicados entre 1987 e 2013, compostos 82% por ensaios clínicos randomizados. Cerca de metade da amostra de estudos tinha como desfecho principal (variável avaliada) as modificações dos níveis de pressão arterial e grande parte dos estudos incluídos (86%) envolvia uma comparação com um grupo controle sem exercício (não se exercitou ou ficou em lista de espera). A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada através de uma escala que levou em consideração a qualidade do relatório, a validade interna (vieses e fatores de confusão), validade externa e poder estatístico. Enquanto a maioria dos estudos cumpria os critérios de satisfação para qualidade do relatório (~78%), vieses (~70%) e fatores de confusão (~50%), a satisfação de qualidade de validade externa (~46%) e o poder estatístico (~9%) foram minoria. No geral, a qualidade metodológica dos estudos incluídos foi de 63%.  Apenas 7 estudos tiveram uma qualidade metodológica superior a 80%.

Síntese de intervenções e resultados

Ao todo, 1305 sujeitos foram avaliados nos grupos de intervenção e 1039 nos grupos controle. Aproximadamente 15% da amostra estava sob uso de medicação anti-hipertensiva, entretanto, esta informação estava ausente em 1/3 dos estudos incluídos. As intervenções de treinamento de força tiveram uma duração média de 14,4±7,9 semanas, com uma frequência média de 2,8±0,6 vezes/semana, em intensidades moderadas (de 65% a 75%1-RM). Apesar da grande diversidade apresentada nas variáveis agudas dos programas de treinamento, em média, foram prescritos 2,8±0,9 séries de 11,0±3,8 repetições para 7,9±2,9 exercícios dinâmicos de força por sessão. Os estudos continham em média 21,1±14,9 sujeitos (com uma variação entre 8 e 72) e apresentaram uma alta aderência aos protocolos de treinamento (92,3±8,9%).

A intervenção de treinamento de força apresentou um tamanho de efeito de pequeno a moderado (d+=-0,31 para PAS e -0,30 para PAD), o que representou -3,0mm Hg para PAS e 2,1mm Hg para PAD. Ao analisar os moderadores do efeito (característica que difere esta meta-análise das diversas produzidas anteriormente), os autores demonstram que as reduções de PAS foram maiores nos estudos que apresentavam indivíduos com valores basais maiores. Ainda, um comportamento de dose-resposta foi identificado nesta variável: em indivíduos hipertensos a redução foi de 5,7mm Hg, em pré-hipertensos 3,0mm Hg e em normotensos 0,0mm Hg.

A PAS também apresentou maiores reduções em amostras “não-brancas” (o que incluía latinos, afrodescendentes e asiáticos) e naqueles estudos onde o programa de treinamento incluía 8 ou mais exercícios por sessão, quando comparado com 7 ou menos. Adicionalmente, nesta análise, os estudos que tinham as reduções de PA como desfecho principal, demonstraram melhores resultados do que aqueles desenhados com outros desfechos primários. Estes moderadores foram responsáveis por aproximadamente 67% do efeito da variância da PAS nas intervenções de treinamento de força.

Para as respostas de PAD, de maneira semelhante à PAS, a análise dos moderadores de efeito demonstrou uma relação de dose-resposta com os valores basais nas reduções: 5,2mm Hg para hipertensos, 3,3mm Hg para pré-hipertensos e 1,0 em normotensos. Frequências de treinamento iguais ou maiores a 3/semana foram melhores moderadores de efeito do que frequências menores, bem como, maiores efeitos foram gerados por estudos com qualidade metodológica mais baixa (geralmente produzidos por mais erros sistemáticos), quando comparados com os de qualidade mais alta (os quais, geralmente, tem efeitos “menores”, porém, mais reais). Estes moderadores (frequência de sessões e qualidade metodológica) foram responsáveis por cerca de 50% da variância das respostas de PAD aos programas de treinamento de força.

Considerações finais

Os autores relatam que, ao usarem métodos menos usuais, porém mais sofisticados (como as meta-regressões de moderadores múltiplos), buscas mais abrangentes (incluindo ensaios não randomizados) e diretrizes de qualidade metodológica (para inclusão de estudos), possivelmente tenham produzido os resultados que diferem de metanálises que exploraram o mesmo desfecho em intervenções semelhantes. Além disso, ainda sugerem que as recomendações de modificação de estilo de vida, com a adoção de programas de exercício, constantes nas diretrizes atuais sejam revistas para incluir o treinamento de força como intervenção adicional ao treinamento aeróbico, modificando a atual recomendação que confere o status de suplementar aos programas de força.

Bacharel em Educação Física pela UFGRS, possuindo títulos de Especialista em Cardiologia e Metabolismo pela Fundação Universitária de Cardiologia e Mestrado em Ciências da Saúde, com ênfase em Ciências Cardiovasculares, pela Faculdade de Medicina da UFRGS. Atualmente é pesquisador do Laboratório de Fisiopatologia do Exercício do Hospital de Clínicas de Porto Alegre aluno de doutorado pela mesma instituição de seu mestrado. Academicamente atua nas linhas de hipertensão, obesidade e doenças metabólicas.

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