O caso do óleo de coco, ou o ocaso do óleo de coco?

Recentemente o óleo de coco parece ser o mais novo alvo da mídia, e tem sido apresentado como uma nova solução para a perda de peso, para redução da circunferência da cintura (CC) e para o controle do colesterol. No entanto, poucas são as evidências que temos para avaliar a eficácia desse novo produto.

Ao realizar o cruzamento dos termos “coconut oil” AND “health benefits” na base de dados MEDLINE são encontradas apenas 5 referências, as quais apresentam-se pouco ou nada relacionadas com a busca proposta (busca realizada em 24/06/2012).

Ao aprofundar a busca poucas informações são encontradas.

Um estudo clínico brasileiro, randomizado e duplo-cego realizado com 40 mulheres com idades entre 20-40 anos e CC > 88 cm (obesidade abdominal), avaliou os efeitos da suplementação de óleo de coco sobre os perfis bioquímicos e antropométricos. Os grupos receberam 30 mL/dia de óleo de coco ou de óleo de soja durante o período de 12 semanas e foram igualmente instruídos a seguir dietas hipocalóricas e caminhar 50 min/dia. Após a intervenção o grupo óleo de coco apresentou valores de HDL superiores ao grupo óleo de soja (48,7 ± 2,4 vs. 45,0 ± 5,6; P = 0,01) e menor relação LDL:HDL (2,4 ± 0,8 vs. 3,1 ± 0,8; P = 0,04). A redução do índice de massa corporal (IMC) foi observada em ambos os grupos, mas apenas o grupo óleo de coco apresentou redução (1,4 cm) de CC (P = 0,005). No grupo óleo de soja observou-se piora em todos os parâmetros bioquímicos avaliados. Por conta desses achados os autores concluem que o óleo de coco parece não causar dislipidemia, bem como promover a redução de CC [1].

Nesse contexto ficamos em dúvida se o óleo de coco apresenta reais benefícios, seria neutro ou apenas menos pior do que o óleo de soja?

Numa pesquisa asiática, um estudo de 4 semanas investigou a segurança e eficácia do óleo de coco na redução de peso em 20 indivíduos obesos, sem comorbidades associadas. A segurança foi avaliada pela comparação de testes de função dos órgãos pré e pós-intervenção. A eficácia foi avaliada através do peso, parâmetros antropométricos e bioquímicos. Os resultados demonstraram uma redução (2,86 cm) de CC (P = 0,02), observada apenas em homens (P < 0,05). Os parâmetros bioquímicos apresentaram uma pequena redução nos níveis de transaminase glutâmico pirúvica (TGP/ALT) e creatinina, marcadores de função hepática e renal, respectivamente [2].

Os efeitos das gorduras dietéticas sobre o risco de doença arterial coronariana (DAC) têm sido tradicionalmente estimado a partir de seus efeitos sobre o LDL. No entanto, as gorduras também afetam o HDL, e a relação LDL:HDL demonstra-se um marcador mais específico de DAC que o LDL, relação essa que parece ser influenciada positivamente pelo óleo de coco. No entanto, os efeitos da gordura sobre estes marcadores de risco não devem ser considerados diretamente como reflexo de mudanças de risco, mas devem ser confirmados através de estudos observacionais prospectivos ou com intervenções nutricionais controladas. Sugere-se, com base no princípio da precaução, aceitar que o risco seja reduzido com maior eficácia quando as gorduras trans e as gorduras saturadas são substituídas por gorduras insaturadas, enquanto os efeitos de gorduras ricas em ácido láurico (i.e. óleo de coco) sobre o risco de DAC permanecerem incertos [3, 4].

Situação semelhante foi observada em relação ao medicamento “Torcetrapib” que demonstrou ser capaz de aumentar os níveis de HDL. No entando, paralelamente ao aumento de HDL verificou-se o aumento dos níveis de pressão arterial, que culminou na interrupção prematura de um grande ensaio clínico por excesso de mortalidade no grupo que recebia o medicamento [5]. Por enquanto, se a questão for DAC, a meta permanece no controle do LDL e não no gerenciamento medicamentoso do HDL. O baixo HDL continua a ser um importante fator de risco independente, mas não há provas suficientes de que a elevação de HDL irá fornecer um benefício clínico [6].

A despeito da repercussão na grande mídia e do interesse de mercado para comercialização do produto, o caso do óleo de coco necessita de maiores evidências clínicas para que benefícios reais possam ser associados ao produto. Por enquanto, apesar de alguns dados, podemos estar vivenciando o ocaso do óleo de coco.

Referências:
1. Assunção ML, Ferreira HS, dos Santos AF, Cabral CR Jr, Florêncio TM. Effects of dietary coconut oil on the biochemical and anthropometric profiles of women presenting abdominal obesity. Lipids. 2009 Jul;44(7):593-601.
2. Liau KM, Lee YY, Chen CK, Rasool AH. An open-label pilot study to assess the efficacy and safety of virgin coconut oil in reducing visceral adiposity. ISRN Pharmacol. 2011;2011:949686.
3. Mensink RP, Zock PL, Kester AD, Katan MB. Effects of dietary fatty acids and carbohydrates on the ratio of serum total to HDL cholesterol and on serum lipids and apolipoproteins: a meta-analysis of 60 controlled trials. Am J Clin Nutr. 2003 May;77(5):1146-55.
4. Micha R, Mozaffarian D. Saturated fat and cardiometabolic risk factors, coronary heart disease, stroke, and diabetes: a fresh look at the evidence. Lipids. 2010 Oct;45(10):893-905.
5. Schaefer EJ, Asztalos BF. Increasing high-density lipoprotein cholesterol, inhibition of cholesteryl ester transfer protein, and heart disease risk reduction. Am J Cardiol. 2007 Dec 3;100(11 A):n25-31.
6. Davidson MH. HDL and CETP Inhibition: Will This DEFINE the Future? Curr Treat Options Cardiovasc Med. 2012 Jun 22.

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