Nessa estação o bege é o novo marrom

Nessa estação o bege é o novo marrom

Encontrei na Cell da semana passada esse artigo e após a leitura se tornou óbvio que o assunto interessaria à comunidade do Evidência Saúde.

No artigo entitulado “Beige Adipocytes Are a Distinct Type of Thermogenic Fat Cell in Mouse and Human” (na tradução livre: Adipócitos Beges são um tipo distinto de gordura termogênica em camundongos e humanos) pesquisadores da Harvard Medical School, com colaborações da Finlândia, Holanda e Suécia demonstram a existência de um novo tipo de gordura, tanto em camundongos como em humanos, que pode ser um novo alvo no combate contra a obesidade e a diabetes.

Os adipócitos eram classicamente divididos em dois grupos. A gordura comum, como a conhecemos, é chamada de gordura branca (white fat) e é responsável por estocar energia. A gordura marrom (brown fat) tem um papel chave nos primeiros momentos de vida dos animais/humanos por ter a capacidade de produzir calor, sendo assim chamada de termogênica. A gordura marrom tem um papel muito importante no período inicial da vida combatendo a hipotermia, e em animais que hibernam ou que tem o metabolismo muito acelerado (por exemplo o beija-flor). Em humanos, sabe-se que temos gordura marrom quando nascemos e acabamos perdendo-a gradualmente. Porém acreditava-se que essa gordura permanecia nos adultos na região abaixo da clavícula e no pescoço.

Para gerar calor, essas células adipócitas marrons especializadas utilizam uma proteína chamada de UCP1 (Uncoupling protein 1 ou Thermogenin) que promove o desacoplamento da cadeia respiratória dentro da mitocôndria, gerando calor ou invés de ATPs – aquela do Ciclo de Krebs que aprendemos no colégio, lembra? Por essa razão, a presença/expressão de UCP1 era a marcação molecular para identificar e diferenciar a gordura normal da gordura marrom.

Para compreender melhor a origem desses adipócitos especializados, pesquisadores identificaram que essas células eram provenientes de uma linhagem celular muscular chamada myf-5 (myf-5 muscle- like cellular lineage). Entretanto, observaram que dentro dos adipócitos marrons, existiam algumas células que não eram derivadas de myf-5, e estas foram chamadas de “células beges” (beige cells), por não serem nem white, nem brown fat.

Os pesquisadores buscaram investigar e caracterizar o então potencial desse novo tipo celular. Isso foi realizado através de linhagens clones de adipócitos brancos (WAT: white adipocyte tissue) e de adipócitos marrons (BAT: brown adipocyte tissue). Foi observado por uma análise de micro-arranjo genético (microarray) que existiam alguns clones da WAT que apresentaram um perfil similar ao BAT quando essas células foram estimuladas. Esses clones foram então testados dentro da hipótese da existência das células beges. Esses “clones Beges” apresentaram uma expressão reduzida de UCP1 (marcação molecular das BAT) quando não estimuladas. Porém, tanto a expressão de UCP1, como a atividade da cadeia respiratória foram aumentadas quando essas receberam estímulo in vitro, e também quando foram transplantadas e medidas in vivo.

Através de diferentes marcações moleculares os pesquisadores conseguiram diferenciar e identificar esse novo terceiro tipo de adipócito, as células Beges. Este mesmo grupo havia mostrado em um artigo na Nature deste ano que um hormônio chamado Irisina é secretado pelos músculos e aumentado com o exercício físico. O hormônio promove uma mudança para um fenótipo mais termogênico da WAT e tem pouco efeito sobre a BAT. Assim eles observaram que quando a Irisina foi administrada sobre as células Beges, estas foram ainda mais estimuladas a um fenótipo de adipócito marrom. Concluindo que o efeito da Irisina sobre a WAT visto anteriormente ocorreu sobre os precursores de células Beges.

Por fim, para verificar a presença desse novo subtipo de adipócito em humanos adultos, os pesquisadores realizaram biópsias da região supraclavicular. Analisando a expressão dos mesmos marcadores encontrados em camundongos e utilizados para diferenciar os dois tipos de adipócitos mais as células Beges, os autores demonstraram que o adipócito marrom identificado em humanos adultos se assemelha mais com as células Beges de camundongos, do que com a gordura marrom clássica.

Esse novo tipo de adipócito pode ser importante para o tratamento da obesidade e diabetes, servindo como alvo para modificação do fenótipo termogênico dessas células. Como essas têm a capacidade de estocar energia e quando estimulada fazer termogênese, ativar a mudança do fenótipo ser um caminho para o tratamento das doenças associadas ao sobrepeso.

Como imunologista não posso deixar de comentar sobre o fato dessas células terem a expressão aumentada de CD137 e também de CD40. Esse paralelo não foi traçado no artigo, talvez porque não era esse o foco, porém ambas são proteínas de membrana e estão envolvidas na ativação de linfócitos T e B (células de defesa). Assim, é possível hipotetizar que a maior presença das células Beges – estimulada pelo exercício, por exemplo – poderiam também favorecer uma melhor resposta imune no indivíduo.

Referência:
Wu et al. Beige adipocytes are a distinct type of thermogenic fat cell in mouse and human. Cell 2012 Jul 20;150(2):366-76.

Clique aqui e acesse o artigo original.

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