Exercise Immunology Review – Edição comentada de periódico

Uma das mais atraentes e desafiadoras áreas do conhecimento relacionado ao exercício é a disciplina de imunologia do exercício. Tal conteúdo não se encontra na formação básica acadêmica dos cursos de graduação da maioria das universidades brasileiras, tema já debatido muito anteriormente no ambiente científico (Brügger et. al, 1998), mas permanece uma discussão atual (Shephard RJ, Development of the discipline of exercise immunology. Exerc Immunol Rev. 2010;16:194-222). Mas felizmente existe uma sociedade internacional que se empenha em manter viva e ativa esta área do conhecimento, publicando periodicamente uma das mais influentes revistas cientificas: Exercise Immunology Review.

Especialmente, a última edição desta revista tem como conteúdo o posicionamento oficial da Association for the Advancement of Sports Medicine, German Society of Sports Medicine e Prevention e International Society of Exercise Immunology (ISEI) sobre muitos tópicos interessantes nesta área do conhecimento.

Esta edição destaca que desde a formação da ISEI (1993), por 16 pesquisadores ligados a ciência básica, são mais de 2.200 artigos sobre exercício e sistema imunológico (descartando atividade física como termo na busca em banco de dados). Os artigos desta edição contam com os maiores nomes da área dissertando e mostrando as evidências sobre assuntos como as recorrentes infecções em atletas de elite de resistência, particularmente em períodos próximos de grandes competições, devido ao estresse imunológico ao qual o organismo é submetido durante o treinamento de alta intensidade (Position statement. Part one: Immune function and exercise. Exerc Immunol Rev. 2011;17:6-63).

O volume destaca ainda a escassez de trabalhos com animais que realmente simulem a imunologia humana. Adicionalmente, os dados já relatados sobre monócitos circulantes, células relativamente imaturas pouco informam para o conhecimento das células de defesa já diferenciadas como os macrófagos teciduais. Mais evidente ainda é a falta de trabalhos divulgando os efeitos do exercício em células dendríticas que tem uma participação fundamental na iniciação da resposta imunológica.

Um ponto crucial é a evidencia de que as catecolaminas estão envolvidas na mobilização do sistema imunológico em reposta ao exercício. A linfocitose (aumento no número de linfócitos circulantes) em resposta ao exercício é um exemplo da influencia das catecolaminas no sistema imunológico. No entanto, o significado clínico deste aumento, não está esclarecido na literatura, visto que modificações de até 25% em parâmetros imunológicos são observadas, mas sem estar relacionado com algum evento indesejável ou protetor. Visto que a função imune é um fator crítico para a garantia de condições de sobrevivência, torna-se bastante difícil mensurar quanto o exercício atua como um benefício ou como um desafiante deste sistema, pois a sobrevida ou a mortalidade por acometimentos imunológicos envolvem múltiplos fatores paralelos a biologia do exercício.

A revista conta ainda com ilustrações onde é possível visualizar de uma maneira muito didática a relação contínua desde a inatividade física, gerando acúmulo de gordura visceral, promovendo um processo crônico de inflamação sistêmica relacionada à resistência a insulina, aterosclerose, neurodegeneração, crescimento tumoral. Em outras palavras, a relação do sistema imunológico e o estabelecimento do diabetes tipo II, depressão, doenças cardiovasculares e câncer.

A edição abrange também muitos conceitos básicos e evidências sobre a influência do exercício e do treinamento na produção de citocinas pró e anti-inflamatórias além da importância das proteínas de choque térmico (HSP70) como imunomoduladoras. Sobretudo, está em evidência a discussão da psiconeuroimunologia como sendo uma importante via de comunicação e de regulação no nosso organismo em dois sentidos: do sistema imune ao sistema nervoso central e vice-versa (Position statement. Part two: Maintaining immune health. Exerc Immunol Rev. 2011;17:64-103).

Enfim, trata-se de uma revista inteira, publicada no ultimo mês, que traz atualidades e perspectivas futuras para a pesquisa na área da imunologia do exercício.

Referências:

1. Maltseva DV, Sakharov DA, Tonevitsky EA, Northoff H, Tonevitsky AG. Killer cell mmunoglobulin-like receptors and exercise. Exerc Immunol Rev. 2011;17:150-63. Review. PubMed PMID: 1446357.
2. Ogawa K, Seta R, Shimizu T, Shinkai S, Calderwood SK, Nakazato K, Takahashi K. Plasma adenosine triphosphate and heat shock protein 72 concentrations after aerobic and eccentric exercise. Exerc Immunol Rev. 2011;17:136-49. PubMed PMID: 21446356.
3. Gleeson M, Bishop N, Oliveira M, McCauley T, Tauler P. Sex differences in immune variables and respiratory infection incidence in an athletic population. Exerc Immunol Rev. 2011;17:122-35. PubMed PMID: 21446355.
4. Gillum TL, Kuennen MR, Schneider S, Moseley P. A review of sex differences in immune function after aerobic exercise. Exerc Immunol Rev. 2011;17:104-21. Review. PubMed PMID: 21446354.
5. Walsh NP, Gleeson M, Pyne DB, Nieman DC, Dhabhar FS, Shephard RJ, Oliver SJ, Bermon S, Kajeniene A. Position statement. Part two: Maintaining immune health. Exerc Immunol Rev. 2011;17:64-103. Review. PubMed PMID: 21446353.
6. Walsh NP, Gleeson M, Shephard RJ, Gleeson M, Woods JA, Bishop NC, Fleshner M, Green C, Pedersen BK, Hoffman-Goetz L, Rogers CJ, Northoff H, Abbasi A, Simon P. Position statement. Part one: Immune function and exercise. Exerc Immunol Rev. 2011;17:6-63. Review. PubMed PMID: 21446352.
7. Shephard RJ. Development of the discipline of exercise immunology. Exerc Immunol Rev. 2010; 16:194-222. PubMed PMID: 20839500.
8. Brügger, NA et al. Justificativa à inclusão da disciplina de imunologia nos cursos de educacão física. Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde, 3(1); 79-83, 1998.

 

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