Estudo IDEA (JAMA, 2016) – A tecnologia pode ajudar no emagrecimento?

Estudo IDEA (JAMA, 2016) – A tecnologia pode ajudar no emagrecimento?

O estudo IDEA (Innovative Approaches to Diet, Exercise and Activity) foi um ensaio clínico randomizado, onde os 471 pessoas foram alocados em um de dois grupos possíveis:
(i) intervenção padrão para perda de peso; ou (ii) intervenção com uso de tecnologia.

O artigo é muito bem descrito e – para quem estuda ou trabalha com obesidade – recomendo fortemente a leitura do texto completo.

Ambos os grupos tiveram uma intervenção idêntica no primeiro semestre da pesquisa, a qual consistiu de abordagem comportamental para perda de peso.
Ao final dos primeiros 6 meses de estudo, foram incorporados 3 procedimentos, também aos dois grupos:
1) ligações telefônicas como reforço da intervenção;
2) mensagens de texto;
3) acesso online a materiais educativos.

Repito: os três procedimentos acima foram feitos para os dois grupos. Ou seja, não existe um “controle” sem intervenção.

A diferença foi a partir dos 6 meses de estudo, quando os indivíduos do grupo com uso de tecnologia usaram equipamento portátil de vestir no braço (wearable device) e tiveram acesso a uma plataforma online. Portanto, ao grupo tecnologia foi proporcionado o controle de atividade física e alimentação. Isto foi COMBINADO com a intervenção de educação para emagrecimento (descrita acima).

A duração total do estudo foi de 2 anos. As avaliações foram feitas no início do estudo e em outros quatro pontos de seguimento, sendo estes: 6, 12, 18 e 24 meses.

A amostra do estudo teve mediana de 31 anos, com índice de massa corporal elevado (mediana de 31,2 km/m2). No geral, a amostra foi composta principalmente mulheres (71% do total) e pessoas com nível socioeconômico médio-alto.

Agora a surpresa: a intervenção padrão (“controle”) para perda de peso foi superior ao grupo com uso da tecnologia. A perda de peso foi o desfecho primário e – ao final do estudo – as reduções foram de:

(i) intervenção padrão: -5,9 kg
(ii) intervenção com uso de tecnologia: -3,5 kg

Diferença entre grupos: -2,4 (intervalo de confiança 95%: -3,7 a -1,0); P=0,002

Perceba que, como a duração foi de dois anos, essas mudanças já refletem algum reganho de peso. Se usássemos, por exemplo, os resultados da avaliação de seis meses, teríamos variações de -8,6 e -8,0 kg no grupo padrão e grupo tecnologia, respectivamente (nesse caso, sem diferença estatística).

Outros resultados avaliados incluem: atividade física semanal, composição corporal (avaliada por DEXA), e consumo de oxigênio.
Nesse sentido, chama atenção que o grupo com uso de tecnologia não foi diferente do grupo padrão nas variáveis de atividade física medida por acelerometria ou no consumo calórico (total e estratificado por macronutrientes). Então, um ponto a comentar é que a premissa de que o uso do equipamento poderia otimizar o cuidado com o estilo de vida, não se confirmou nesse estudo/amostra. Outro ponto, este mais curioso: como não houve diferenças estatísticas entre os dois grupos para atividade física e dieta, é difícil estabelecer o que influenciou a maior perda de peso no grupo de intervenção padrão. Mas, neste aspecto, sugiro que você estude a tabela 3 do estudo. Há dados interessantes.

Considerações finais

(1) A intervenção padrão não deve ser entendida como “fazer nada”. Embora tenha sido o “controle”, este é um comparador ativo que consistiu de três formatos de educação para perda de peso (ligações, mensagens e material online). E para o desfecho primário (massa corporal total), foi superior.

(2) O estudo oferece pontos interessantes. Por exemplo: (i) será que equipamentos de punho podem ser mais eficazes?; ou (ii) considerando que já os participantes já haviam reduzido aproximadamente 8 kg quando o equipamento foi introduzido ao grupo da tecnologia, será que houve real uso e aderência ao recurso tecnológico?

(3) Não generalize esses resultados para qualquer pessoa. A amostra foi composta principalmente de mulheres jovens.

Link do artigo: http://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/2553448

Professor, pesquisador, e pai. Sócio-fundador do Evidência Saúde. Interessado em exercício em grupos especiais, metodologia científica, e disseminação científica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *