Desestressa senão o neutrófilo te pega…

O sistema imune é integrado por um complexo de células distintas que promovem a proteção contra patógenos (organismos estranhos) e tumores. Porém, em alguns casos as células imunes se “confundem” e reconhecem moléculas do seu próprio organismo para atacar, dando origem às doenças auto-imunes, como o Lupus, Diabetes Melitus do Tipo 1, Artrite Reumatóide, entre outras. Essas doenças vêm aumentando sua prevalência nos últimos anos tanto pelo aumento da longevidade como pela melhor compreensão dessas patologias.

As células imunes mais abundantes em nossa corrente sanguínea são os neutrófilos. Essas são células especializadas em reconhecer e capturar patógenos estranhos – através da fagocitose. São também as primeiras células imunes a deslocarem-se para os locais onde existe infecção ou outro tipo de estresse celular (dano tecidual, por exemplo). O movimento dessas células para o seu sítio de ação chama-se de migração (ou recrutamento), através de um processo chamado de quimiotaxia.

Num artigo brasileiro publicado recentemente na PNAS (Proceedings of the Nation Academy of Sciences) foi identificado que o peptídeo liberador de gastrina (sigla em inglês GRP, gastrin-releasing peptide) é uma molécula recrutadora de neutrófilos (Czepielewski, Porto, Rizzoet al., 2012). O GRP é um neuropeptídeo (ou seja, um fragmento de proteína, com cerca de 10 aminoácidos) que é produzido principalmente por neurônios, na conexão do sistema nervoso com outras células efetoras, como na liberação de gastrina no trato gástrico. Portanto, suas principais funções conhecidas estão envolvidas nos processos digestivos, auxiliando também no controle do peristaltismo gástrico.

A novidade apresentada nesse trabalho relaciona-se com um novo papel para o neuropeptídeo, caracterizando-o como uma molécula quimiotática (ou seja, que induz quimioatração, migração).

É conhecida a associação do influxo de neutrófilos para o líquido sinovial (o lubrificante das articulações) em pacientes com Artrite Reumatóide. Essa é uma doença auto-imune que promove uma reação inflamatória contra essas articulações, causando inchaço, dor local, e uma gradual degradação das cartilagens e ossos, gerando dificuldades mecânicas para realizar movimentos rotineiros e perda contínua destes se não houver tratamento. Porém, atualmente não se conhece as razões para o surgimento da doença e a maioria dos tratamentos existentes exercem efeitos no sistema imune como um todo, causando debilitação imunológica. Dentro deste contexto, o artigo mostrou a presença do GRP no líquido sinovial de pacientes com AR. E sabendo-se que o neuropeptídeo estimula a migração de neutrófilos, foi utilizado um antagonista específico ao receptor do GRP (ou seja, uma molécula que não permite a ligação do GRP em seu receptor para realizar as suas ações), que resultou na diminuição do recrutamento dessas células imunes em direção ao líquido sinovial desses pacientes, em um ensaio in vitro que mimetiza o processo de migração de um neutrófilo do vaso sanguíneo para o local inflamatório.

Os resultados deste trabalho propõem que os mecanismos de recrutamento do GRP devem ser estudados em outras condições onde neutrófilos estão associados (como por exemplo, no Lupus, Asma e Enfisemas Pulmonares) e que antagonistas e bloqueadores do receptor de GRP sejam utilizados para o tratamento da Artrite Reumatóide.

Além disso, hipóteses surgem quando encontram-se novos participantes da comunicação entre o sistema imune e o sistema nervoso. Uma possibilidade seria a influência do sistema nervoso para o surgimento da atividade pró-inflamatória excessiva do sistema imune. em casos de estresse psicológico. Sendo assim, o neuropeptídeo seria liberado por neurônios ativados e promoveria a origem de doenças crônicas, como a AR e a Asma, como foi mostrado também recentemente (Zhou, Potts, Cuttittaet al., 2011).

Embora ainda incipiente para essas suposições os achados apontam para a relação do estresse físico ou mental com processos associados com o desenvolvimento de complicações crônicas, sugerindo que “ficar doente por estresse” começa a ser menos abstrato e mais específico.

Referências:
1. CZEPIELEWSKI, R. S.; PORTO, B. N.; RIZZO, L. B.; ROESLER, R.; ABUJAMRA, A. L.; PINTO, L. G.; SCHWARTSMANN, G.; CUNHA FDE, Q.; BONORINO, C. Gastrin-releasing peptide receptor (GRPR) mediates chemotaxis in neutrophils. Proc Natl Acad Sci U S A, v. 109, n. 2, p. 547-52, Jan 10 2012.
2. ZHOU, S.; POTTS, E. N.; CUTTITTA, F.; FOSTER, W. M.; SUNDAY, M. E. Gastrin-releasing peptide blockade as a broad-spectrum anti-inflammatory therapy for asthma. Proc Natl Acad Sci U S A, v. 108, n. 5, p. 2100-5, Feb 1 2011.

 

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