CELAFISCS: dos highlights de 2011 para as perspectivas futuras

CELAFISCS: dos highlights de 2011 para as perspectivas futuras

O 34º Simpósio Internacional de Atividade Física reuniu mais de 1.100 participantes palestrantes nacionais e internacionais, 984 temas livres, 10 expositores e 306 instituições.

Um dos aspectos que chamou atenção foi a temática central do simpósio: Evidências x Especulações na saúde e no esporte.

Isso fortalece nossa impressão de que as evidências passam a receber cada vez mais importância na discussão e na aplicação de estratégias para saúde, o que – em si – é um fato a ser comemorado.

O ciclo de palestras e cursos iniciou com o Prof. Dr. Mark Tarnopolsky abordando o tema Diferenças Sexuais no Metabolismo de Exercício e Aplicações Nutricionais. O assunto é muito relevante visto que contradiz o senso comum que as mulheres possuem maior dificuldade em oxidar gordura, quando comparadas ao homem.

Nesse sentido, o Prof. Dr. Tarnopolsky apresentou artigos relacionados ao tema.

Em uma meta análise de 22 artigos, a qual foi realizada para esclarecer se as mulheres oxidavam mais ou menos gordura comparadas aos homens, as mulheres apresentaram RER de 0,87, enquanto os homens tiveram RER de 0,90. Esta variável reflete a contribuição de fontes aeróbicas e anaeróbicas para o metabolismo energético. Dessa forma, mulheres realizando exercícios aeróbios a 65% do VO2pico, oxidam levemente mais lipídios e menos CHO e PTN do que os homens – salientamos que a diferença é realmente pequena.

Estudos que utilizaram biópsia muscular indicaram que as mesmas possuem um maior número de transportadores de ácidos graxos livres nas membranas celulares como: FAT – FATP e FABPpm (para definições, veja um artigo que escrevi anteriormente). Outro dado interessante é que as mulheres possuem mais lipídios intramusculares do que os homens, por expressar mais a enzima SREBP-1, a qual se relaciona com a lipogênese. Quando se trata do glicogênio, as mulheres parecem utilizar menos glicogênio, indicando o “sparing effect” (efeito poupador de glicogênio). Já em mulheres com amenorreia, a taxa de oxidação de gordura não parece ter diferenças. A enzima AMPK, que é responsável por controlar o metabolismo glicolítico e oxidativo, parece estar aumentada durante a menstruação, indicando uma possível estratégia para treinamento nesse período quando se pensa em oxidar gordura. O Prof. Dr. Tarnopolsky finalizou sua apresentação relatando estratégias nutricionais para homens e mulheres no aumento da performance, o que pode ser um dos temas altos no simpósio deste ano, especialmente pela proximidade a eventos competitivos como os Jogos Olímpicos.

No curso de envelhecimento, o Prof. Luiz Mochizuki explanou sobre bases biomecânicas na aplicação correta da marcha em idosos, bem como as fases da marcha como: apoio único, apoio duplo e fase de voo, e ele destaca ainda que a velocidade do movimento não determina se a pessoa está caminhando ou correndo. Nessa linha, o controle postural que é baseado no suporte, equilíbrio e estabilidade, controlados pelo sistema visual, vestibular e somatossensorial, todos podendo ser mensurados pelo Estabilograma, que é o diagrama de estabilidade. Destaca-se também o final da marcha de um idoso, onde há uma ativação de todos os músculos posteriores ao mesmo tempo, motivo esse de não conseguirem parar de caminhar com apenas um passo, aumentando dessa forma as chances de queda.

Dando continuidade aos ciclos de palestra, o Dr. Tales de Carvalho relatou de maneira exemplar quando adotar o exercício intenso na reabilitação cardiovascular e metabólica. Assim, comentou sobre a relação inversa entre velocidade de caminhada e mortalidade, onde caminhadas mais intensas se associam com menor mortalidade. Isto reforça a importância do exercício físico controlado para aumentar a expectativa de vida e reduzir em até 90% a mortalidade por doenças cardiovasculares e/ou metabólicas, indicando ainda que para reduzir a aterosclerose, um gasto semanal de 2.200 kcal é suficiente. Por fim, o Dr. Tales alertou sobre estudos pioneiros que combinam fatores psicossociais e físicos, como dança ou outras atividades mais lúdicas e que também envolvem movimento. Esta temática pode ser outra tendência para o evento de 2012, pois alguns estudos que abordam esses tipos de intervenção têm aparecido na literatura internacional.

Em 2011, o Dr. Marcelo Leitão explanou sobre a Ergoespirometria na Reabilitação Cardiovascular, apresentando dados interessantes sobre a perda de adaptação promovida pelo sedentarismo. Em atletas de elite, por exemplo, apenas três dias repouso em leito, reduzem o consumo máximo de oxigênio (VO2max) em até 17%.

Adicionalmente, o Prof. Willen Van Mechelen, demonstrou a efetividade do investimento do exercício físico no trabalho, com redução das despesas médicas e índices de absenteísmo/presenteísmo e retorno do investimento em saúde ao empresário, podendo economizar em até 254 euros por trabalhador. Esse tema de custo-efetividade do exercício tem recebido estudos e comentários em revistas científicas de alta circulação e deve ser uma discussão vigente nos próximos anos.

O Prof. Dr. Alvaro Reischak de Oliveira, abordou estresse oxidativo e exercício físico, explicando passo a passo as reações químicas envolvidas na liberação de radicais livres no sistema imune. Foi destacada também a importância do exercício físico regular como antioxidante e responsável por reduzir o estresse oxidativo em diferentes quadros clínicos, como em pessoas portadores do vírus HIV. Neste contexto, o Ministério da Saúde tem empreendido esforços para a formulação de orientações de estilo de vida para pessoas com HIV ou AIDS, e assim essa temática deve ser fortemente associada com o exercício físico no futuro breve.

O Prof. Dr. Carlos Eduardo Negrão explanou sobre o exercício físico no tratamento das doenças cardiovasculares. O exercício físico como prevenção primária e secundária.

A obesidade per se, aumenta o tônus simpático e crianças obesas já possuem disfunção cardiovascular, prejudicando o metabolismo de receptores cardíacos responsáveis pelo transiente de cálcio no cardiomiócito, já o exercício físico por sua vez, aumenta a liberação de noradrenalina que controla a contratilidade cardíaca e pressão arterial.

No tratamento da hipertensão arterial, o exercício possui um efeito agudo capaz de reduzir as PAS, PAD, e PAM em uma única sessão de exercício, além de reduzir a ativação do sistema nervoso simpático com concomitante redução da angiotensina II (potente vasoconstrictor).

Na doença arterial coronariana o exercício regular foi capaz de reduzir colesterol total e aumentar o HDL, lembrando que indivíduos treinados possuem cinéticas diferentes do colesterol LDL, indicando uma menor toxicidade desse colesterol, especialmente em sua forma oxidada que é potencialmente aterogênico. O exercício também contribui reduzindo a formação de neointima, aumenta a angiogênese, aumenta CD34 através das células progenitoras do endotélio, aumenta ENOs, aumenta o fluxo coronário e até reduz placas de ateroma.

O papel do exercício também foi abordado para o tratamento da insuficiência cardíaca. Esses possuem exacerbação neuro-humoral, hiperatividade simpática, redução do fluxo sanguíneo renal e vasoconstricção periférica elevada, podendo levar a miopatia esquelética. Embora a alta atividade simpática seja maléfica, o exercício pode ser uma intervenção eficaz para a redução simpática. Em exame de microneurografia, >49 disparos (disparos simpáticos por minuto) = aumentam em 90% risco de morte, <49 disparos = redução em 20% do risco de morte. O exercício também é capaz de reduzir o TNF-alfa (citocina pró-inflamatória) e aumentar mediadores moleculares associados com preservação de proteínas musculares, o que é importante nesses indivíduos para manutenção da massa muscular.

A Profa. Dra. Patrícia Chakur Brum abordou o tema: Atrofia Muscular na Insuficiência Cardíaca: Efeitos do exercício aeróbico. Com diversas evidências em animais e moleculares, a Profa. Patrícia demonstrou o efeito do exercício aeróbico em reduzir a degradação protéica na insuficiência cardíaca, tendo um importante papel aumentando da via IGF1, PI3K, AKT, mTOR e reduzindo a via das E3ligases e ubiquitina proteassoma. Esse achado tem grande importância por demonstrar a efetividade do exercício aeróbio na preservação da massa magra, o que é comum com o treinamento de força. Concluindo, a relação das vias moleculares na adaptação muscular pelo exercício parece ser uma forte tendência para o futuro. Isso também reflete uma incorporação de temas de biologia molecular em eventos que antigamente tinham um viés mais clínico, como é o caso do CELAFISCS. Especialmente em quadros que induzem sarcopenia como envelhecimento ou insuficiência cardíaca, as evidências de biologia molecular devem ser enfatizadas visto que trazem um conhecimento muito novo e aprofundado.

 

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