A que devo meus resultados, a genética ou ao treinamento?

Decidi começar a correr e após a minha primeira prova me questiono: Será que me favoreço mais em provas curtas, ou tenho potencial para me destacar em provas longas?

Quando pensamos em fatores que podem influenciar a capacidade de execução de uma corrida ou a evolução do treinamento físico, nos lembramos de variáveis fisiológicas como o consumo máximo de oxigênio (VO2 máximo), o limiar anaeróbio, ou ainda dos aspectos nutricionais, biomecânicos e psicológicos. Mas até que ponto as variáveis fisiológicas podem ser trabalhadas e quanto da nossa evolução/desempenho é dependente de características genéticas?

A constituição genética do ser humano contempla 46 cromossomos (23 pares) e, aproximadamente, 30 mil genes. Estes últimos são responsáveis pelas características estruturais e funcionais da espécie. Os genes não são todos iguais, eles podem apresentar pequenas variações nas sequências de bases do DNA (polimorfismos) que resultam em modificações da expressão e da atividade proteica. Além disso, os polimorfismos em interação com condições ambientais específicas determinam um fenótipo, o que explica muitas das variações observadas, por exemplo, no desempenho físico.

Nos últimos anos, houve um avanço significativo no número de estudos investigando a associação entre genes e desempenho físico. Atualmente, o mapa genético humano apresenta em torno de 214 variantes de “genes candidatos” relacionados aos fenótipos de desempenho físico e boa aptidão física.

Dentre os polimorfismos já descobertos encontram-se os da enzima conversora da angiotensina (ECA), da proteína muscular α-actinina 3, da enzima creatina quinase (CK), do receptor β2 de bradicinina, do DNA mitocondrial, da óxido nítrico sintase, da endotelina 1 e da miostatina entre tantos outros.

De forma simplificada, podemos considerar que a nossa herança genética nos proporciona características musculares, bioquímicas e metabólicas que nos direcionam a ter melhor desempenho em atividades que exigem mais potência, como por exemplo, provas rápidas, onde há predominância do metabolismo anaeróbio, ou de provas longas, onde existe maior utilização do metabolismo aeróbio.

Não podemos esquecer que o desempenho físico é resultante de fatores biológicos, ambientais, psicológicos e, fundamentalmente, do treinamento físico adequado. Devido a isso, a análise isolada de um gene não necessariamente determina o fenótipo de um indivíduo. No entanto, é importante considerar que a identificação de genes e a prescrição de programas de treinamento direcionada para os polimorfismos podem potencializar a característica de cada um.

Desta forma, respondendo a questão inicial, além de procurarmos uma boa orientação para a prática da corrida, talvez devêssemos também olhar para as características dos nossos pais e não esquecer, que acima de tudo, todos podemos desfrutar dos imensos benefícios da prática da corrida.

Referências:

1. Macarthur, D.G. and K.N. North, Genes and human elite athletic performance. Hum Genet, 2005. 116(5): p. 331-9.
2. Bray, M.S., et al., The human gene map for performance and health-related fitness phenotypes: the 2006-2007 update. Med Sci Sports Exerc, 2009. 41(1): p. 35-73.
3. Ostrander, E.A., H.J. Huson, and G.K. Ostrander, Genetics of athletic performance. Annu Rev Genomics Hum Genet, 2009. 10: p. 407-29.
4. Dias, R.G., et al., Polimorfismos genéticos determinantes da performance física em atletas de elite. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, 2007. 13: p. 209-216.

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