Artigos :: Detalhe

« Voltar
Seção » Artigos » Enfermagem, Cardiologia, Bioquímica

Entendendo a Proteína C-Reativa - Parte 1

08/11/2011 13:31:07Por Paula Caputo

Biomédica Esp. Paula M. Caputo
Mestranda em Ciências da Saúde: Cardiologia e Ciências Cardiovasculares (UFRGS)
Especialista em Saúde Pública (UFRGS)

Historicamente, a descoberta da proteína C-reativa (PCR) e seu nome, deveram-se à observação aleatória de uma proteína que reagia com o polissacarídeo C da cápsula de S. pneumoniae obtida do sangue de pacientes durante a fase aguda de pneumonia pneumocócica.

Assim, iniciaram-se os estudos das alterações das proteínas plasmáticas em soro de pacientes agudamente enfermos devido a infecções. As proteínas encontradas nessas situações foram denominadas proteínas de fase aguda, e a reação inflamatória desencadeada, passaram a ser denominada de resposta de fase aguda.

Posteriormente, concentrações elevadas destas proteínas foram verificadas após traumas, isquemias, neoplasias, reações de hipersensibilidade, bem como em estados inflamatórios crônicos.

A proteina C-reativa (PCR) possui funções pró, anti-inflamatórias, e regula a intensidade e a extensão da reação inflamatória causando a interação entre as imunidades humoral e celular. É produzida no fígado e classificada como pentraxina – um pentâmero com uma fenda ligadora de fosfatidilcolina (cálcio dependente) e outras em face oposta que se ligam ao componente do sistema complemento C1q e à porção Fc de imunoglobulinas. Basicamente, sua função é ligar-se a patógenos e/ou células lesadas e/ou apoptóticas (fosfatidilcolina) e dar início à eliminação por meio da ativação do sistema complemento e de fagócitos (C1q e Fc).

A ativação do complemento ocorre pela via clássica, os fragmentos de C3 e C4 se depositam na PCR e no ligante, ocorrendo a aclivagem de C3 em C3a, responsável pela liberação de histaminas de basófilos e mastócitos, e C3b, que age atraindo fagócitos (macrófagos) ao local da inflamação. Como a ativação não converte C5, não há amplificação dos efeitos pró-inflamatórios ou formação do complexo de ataque à membrana diretamente pela PCR. Assim, a PCR e a via clássica do complemento corroboram em harmonia, gerando a limpeza das células apoptóticas sem ocasionar lise celular, minimizando a liberação de mediadores que aumentariam a reação inflamatória.

É nos fagócitos que se dá a interação entre PCR e porção Fc de imunoglobulinas acarretando a indução de fagocitose e à secreção de citocinas pró-inflamatórias como interleucina (IL)-1 e fator de necrose tumoral (TNF). Nos neutrófilos, essa interação (PCR – porção FC imunoglobulinas) diminui a inflamação com inibição da resposta quimiostática, levando à clivagem de L-selectina e diminuindo a marginação de leucócitos e endocitose de receptores IL-6.

A metodologia utilizada para a determinação da proteína C reativa é a imunonefelometria, método que permite  obter resultados quantitativos, facilitando a interpretação clínica e permitindo o acompanhamento laboratorial de cada caso. A PCR é detectada por meio de um anti-soro (soro que contém anticorpos para um antígeno específico) que medem as proteínas e as moléculas ligadas à proteína. Tendo em mente que uma lesão tecidual é responsável por uma série de  eventos de defesa que promovem a eliminação do agente agressor (vírus, bactérias, fungos, etc), a limitação do dano tecidual e restauração da estrutura lesada, Percebe-se a importância dos níveis séricos de algumas proteínas conhecidas como biomarcadores inflamatórios, as quais atuam na resposta inflamatória local ou sistêmica.

Resumindo, a proteína C-reativa reflete toda a extensão do processo inflamatório ou da atividade clínica, principalmente em infecções bacterianas, reações de hipersensibilidade, isquemia e necrose tecidual. É também um marcador de aterosclerose, e um importante marcador da ativação endotelial e indutor de lesão vascular relacionada à inflamação, especialmente em placas de ateroma. Além disso, prediz o risco de infarto do miocárdio, morte súbita, acidente vascular encefálico (derrame) e coronariopatias (angina e infarto do miocárdio), por acelerar o processo de aterosclerose e ter papel na patogênese da aterogênese.

A denominação de PCR hipersensível (hs), ou ultrassensível, refere-se a métodos que detectam valores menores (mais baixos), do que os limites dos métodos usuais. Ou seja, são exames mais sensíveis que  identificam alterações inflamatórias em pacientes aparentemente saudáveis ou com fatores de risco conhecidos e permitem estimar o risco cardiovascular.

Não se deve confundir a proteína C-reativa (hs) ultra-sensível com o exame de proteína C-reativa convencional, que apresenta valores de referência de 0,3 a 0,5 mg/dl, responsável por detectar inflamações e infecções, mas não possui sensíbilidade suficiente para ser utilizada como marcador de risco, ou seja, é inespecífico como marcador de processos inflamatórios. Quando a proteína C-reativa (hs) atinge valores limítrofes superiores a 0,3 mg/dl, sugere forte indício de risco independente. Por exemplo, no caso da aterosclerose, que é em parte uma doença inflamatória, cerca de metade dos infartos do miocárdio ocorre em pessoas com níveis normais de gordura; assim, a combinação da proteína C-reativa ultra-sensível (hs), com outros exames, como o perfil lipídico e homocisteína, são fundamentais para uma melhor interpretação dos achados, aumentando significativamente a sensibilidade dos cálculos dos fatores de risco de doença coronariana.

Conecte-se ao Evidência Saúde

Recomende nosso site no Google

TAGS & CATEGORIAS

NEWSLETTER